Curso a Arte de contar Histórias Infantis

O contar de um povo revela os seus usos e costumes, o seu falar e o seu dizer, o cotidiano e a esperança de um devir, o que percebe como real e como produto da imaginação. A vida expõe-se no ato de contar”.

No Brasil, supostamente esta arte milenar teve sua origem consolidada entre a comunidade por intermédio do resgate do folclore, presente na cultura indígena, nas apresentações artísticas de grupos circenses e teatrais, cantadores de viola, trovadores, poetas e carpideiras passadas de geração a geração.

Enfim, pode ser compreendida como típica manifestação da cultura popular brasileira.

Na antiguidade, alguns relatos demonstram que a contação de histórias era compreendida como sendo algo inferior à escrita.

Contudo, tal julgamento não impedia que seus praticantes e disseminadores se reunissem para comunicar os fatos ou resgatar as histórias, pluralizando costumes e difundindo sua cultura.

A Literatura Infantil

Tudo o que acontece ao nosso redor, desde a nossa primeira infância, fica registrado em nosso inconsciente. Isto significa que tudo aquilo que vemos, ouvimos e sentimos influi no nosso desenvolvimento e amadurecimento.

Aplicando esta verdade fundamental – que a psicologia ensina – ao nosso assunto, arriscamos afirmar que felizes são aquelas crianças que, desde os primeiros dias de sua vida, experimentam a presença de livros ao seu redor.

A designação infantil faz com que esta modalidade literária seja considerada “menor” por alguns, infelizmente.

Principalmente os educadores vivenciam de perto a evolução do maravilhoso ser que é a criança. O contato com textos recheados de encantamento faz-nos perceber quão importante e cheia de responsabilidade é toda forma de literatura.

A palavra literatura é intransitiva e, independente do adjetivo que receba, é arte e deleite. Sendo assim, o termo infantil associado à literatura não significa que ela tenha sido feita necessariamente para crianças.

Na verdade, a literatura infantil acaba sendo aquela que corresponde, de alguma forma, aos anseios do leitor e que se identifique com ele.

A autêntica literatura infantil não deve ser feita essencialmente com intenção pedagógica, didática ou para incentivar hábito de leitura. Este tipo de texto deve ser produzido pela criança que há em cada um de nós.

Assim o poder de cativar esse público tão exigente e importante aparece.

O grande segredo é trabalhar o imaginário e a fantasia.

Origens da Literatura Infantil

O impulso de contar histórias deve ter nascido no homem, no momento em que ele sentiu necessidade de comunicar aos outros alguma experiência sua, que poderia ter significação para todos.

Não há povo que não se orgulhe de suas histórias, tradições e lendas, pois são a expressão de sua cultura e devem ser preservadas. Concentra-se aqui a íntima relação entre a literatura e a oralidade.

A célula máter da Literatura Infantil, hoje conhecida como “clássica”, encontra-se na Novelística Popular Medieval que tem suas origens na Índia. Descobriu-se que, desde essa época, a palavra impôs-se ao homem como algo mágico, como um poder misterioso, que tanto poderia proteger, como ameaçar, construir ou destruir.

São também de caráter mágico ou fantasioso as narrativas conhecidas hoje como literatura primordial. Nela foi descoberto o fundo fabuloso das narrativas orientais, que se forjaram durante séculos a.C., e se difundiram por todo o mundo, através da tradição oral.

A Literatura Infantil constitui-se como gênero durante o século XVII, época em que as mudanças na estrutura da sociedade desencadearam repercussões no âmbito artístico.

O aparecimento da Literatura Infantil tem características próprias, pois decorre da ascensão da família burguesa, do novo “status” concedido à infância na sociedade e da reorganização da escola. Sua emergência deveu-se, antes de tudo, à sua associação com a Pedagogia, já que as histórias eram elaboradas para se converterem em instrumento dela.

É a partir do século XVIII que a criança passa a ser considerada um ser diferente do adulto, com necessidades e características próprias, pelo que deveria distanciar-se da vida dos mais velhos e receber uma educação especial, que a preparasse para a vida adulta.

A importância de Contar histórias às crianças

Sabemos, com todos os pontos e vírgulas, que contar histórias é extremamente importante e benéfico para as crianças, desde a mais tenra idade.

Há quem afirme a eficácia de embalar os bebês, ainda no ventre, com a melodia da voz da mãe, contando histórias, para familiarizar a criança desde aí, com os mecanismos narrativos, e com a proximidade e o afeto que o contar histórias envolve.

Essas ações, de certo modo, já fazem parte das estratégias para a formação do leitor.

Mas, além disso, sabemos que a história narrada, por escrito ou oralmente, nos permite também aquisições em diversos níveis. Isto é: contar histórias para as crianças permite conquistas, no mínimo, nos planos psicológico, pedagógico, histórico, social, cultural e estético.

Ao ouvir uma história, as crianças (e o leitor em geral) vivenciam, no plano psicológico as ações, os problemas, os conflitos dessa história.

Essa vivência, por empréstimo, a experimentação de modelos de ações e soluções apresentadas na história fazem aumentar consideravelmente o repertório de conhecimento da criança, sobre si e sobre o mundo. E tudo isso ajuda a formar a personalidade!

As histórias narradas oralmente proporcionam às crianças uma visão epocal (ainda que de uma forma esboçada), seja do seu tempo, seja de outros tempos.

O recorte oferecido pela história delineia sempre uma época, um conjunto de costumes, comportamentos, vivências, códigos de ações, uma ética, que acabam fazendo do texto esse complexo histórico.

E se as histórias forem ainda contos populares, há a possibilidade de revelarem uma sabedoria ancestral e a tradição dos povos, com temáticas de caráter universal e neste caso, apagando (borrando ou tornando elástica) a linha do tempo, pela potencialização de questões que são de ontem e hoje, de todo e qualquer tempo!

Contar oralmente uma história está relacionado ao reunir, ao criar intimidade, ao ato de entrega coletiva. É um ato agregador de pessoas; é o exercício do encontro – consigo, com os outros, com o universo imaginário, com a realidade;

Classificação das Histórias Infantis

A história tem uma contribuição significativa para a criança, desta forma ela não pode ser improvisada. A narrativa só terá sucesso se esta for planejada organizando o desempenho do narrador.

A história deve se bem escolhida, o contador não deve escolher uma história se essa não lhe agrada, pois não conseguirá passar a emoção para a criança.

Bussato relata que “antes de sensibilizar o ouvinte o conto preocupa em sensibilizar o contador”. (BUSSATO, 2003, p.55), desta forma é preciso que haja relação entre o conto e o contador.

“A história é o mesmo que um quadro artístico ou uma bonita peça musical: não poderemos descrevê-los ou executá-los bem se não os apreciarmos. Se a história não nos desperta a sensibilidade, a emoção, não iremos contá-la com sucesso. Primeiro, é preciso gostar dela, compreendê-la, para transmitir tudo isso ao ouvinte. Quando me interpelam nos curso de treinamento dizendo: “Não gosto de contar histórias tristes, que devo fazer?” A resposta óbvia é: “Não as conte. Escolha o que gosta de contar”

A seleção das histórias devem se encaixar com o interesse do público ouvinte, e esta deve apresentar diversos fatores que vão de encontro com a necessidade das crianças, essa preocupação é expressa por Coelho quando salienta:

“Antes de contar uma história, precisamos saber se trata de assunto interessante, bem trabalhado. Se é original, se demonstra a riqueza de imaginação e se consegue agradar as crianças.”

Para a autora a história é um alimento para a imaginação e deve ser dosada de acordo com sua estrutural cerebral. É relevante pensar na maturação de cada criança e o estágio emocional que a criança se encontra, a história tem que alcançar a criança sem haver saturação.

Sob esta perspectiva é que Tahan (1957) considera não só a história que irá contar mais também a duração da história é muito relevante o contador deve ter em mente o tempo a durar uma história pensando em cada faixa etária.

[…] e de todo interesse, paras o narrador, que a história deixe, no espírito dos ouvintes, a impressão de que foi curta breve e rápida. Isso é preferível a que a narrativa pareça longa a ponto de impacientar o ouvinte. As histórias que se arrastam, por muito tempo, tornam-se fastidiosas, desagradáveis. O tempo da narrativa deve ser cuidadosamente controlado. Para as narrativas em classe o tempo máximo de uma história deve estar, aproximadamente, dentro dos seguintes limites citados pela experiência:

Classe pré – primária- 6 minutos
Classe primária – 8 minutos
Classe ginasial – 15 minutos
Classe de adolescentes – 20 minutos (FREIRE apud Tahan,1957, p.98).

Para Tahan (1957), as classificações das histórias devem ser preocupação para todos que engajam em contar histórias, sendo eles professores, educadores, bibliotecários e narradores de histórias.

Não se deve contar qualquer história para as crianças, há uma classificação a ser respeitada, Tahan menciona quatro critérios que pode ser seguido para a classificação das histórias.

de acordo com a idade ou adiantamento do ouvinte;
de acordo com a relação entre o narrador (atuante) e o enredo da história;
de acordo com a forma pela qual a história é apresentada;
de acordo com o gênero ou natureza da história. (TAHAN, 1957, p.111)

Coelho (2001) considera: “a duração da narrativa depende da faixa etária e do interesse que suscita 5 a 10 minutos para os pequeninos, de 15 a 20 minutos para os maiores.” (p.54)

E acredita que a história só pode ser assimilada de acordo com o desenvolvimento da criança, não podendo a história ser algo que não se encaixe com a faixa etária especifica.

A história também é assimilada de acordo com o desenvolvimento da criança e por um sistema muito mais delicado e especial. (COELHO, 2001, p.15).

Como Contar Histórias

O processo de estímulo e incentivo para se contar uma história são inúmeros, mas sua eficácia depende de como o contador os utilizará. Não há “fórmulas mágicas” que substituam o entusiasmo do contador.

Quem aspira ser um bom contador de histórias, deve desenvolver alguns passos importantes em seus preparativos:

1) a história a ser contada e apresentada deve estar bem memorizada. Por isso, é imprescindível ler a história várias vezes e estar bem familiarizado com cada parágrafo do livro, para não perder “o fio da meada” e ficar procurando algum tópico durante a apresentação;

2) destacar e sublinhar os tópicos mais importantes, interessantes e significativos, para que na apresentação recebam a devida valorização;

3) procurar vivenciar a história. Envolver-se com ela, fazer parte dela e sentir a emoção dos personagens e ao apresenta-la atrair os ouvintes para a magia da história;

4) ao apresentar a história, falar com naturalidade e dar destaque aos tópicos mais importantes com gestos e variações de voz, de acordo com cada personagem e cada nova situação. No entanto, é preciso cuidar para não exagerar nos gestos ou nas entonações de voz;

5) oferecer espaço aos ouvintes que querem interferir na história e participar dela. Quem se sente tocado em seu imaginário sente necessidade de participar ativamente no desenrolar da história.

O importante é que nessa hora não haja pressa, contando ou lendo tudo de uma só vez. É preciso respeitar as pausas, perguntas e comentários naturais que a história possa despertar, tanto em quem lê quanto em quem ouve. É o tempo dos porquês;

6) toda história e toda dramatização devem ser apresentadas com entusiasmo e paixão. Sempre devem transparecer a alegria e o prazer que elas provocam. Sem esses componentes, os ouvintes não são atingidos e logo perdem o interesse pelo que está sendo apresentado.

Segundo Abramovich (1993), “o ouvir histórias pode estimular o desenhar, o musicar, o sair, o ficar, o pensar, o teatrar, o imaginar, o brincar, o ver o livro, o escrever, o querer ouvir de novo. Afinal, tudo pode nascer dum texto!”

A criança, ao ouvir histórias, vive todas essas emoções. Afinal, escutar histórias é o início, o ponto-chave para tornar-se um leitor, um inventor, um criador.

Materiais

Para Ramos (2003), “a leitura é o meio mais importante para se chegar ao conhecimento. Não importa a quantidade que lemos, o que importa é com que profundidade chega-se a esse entendimento.”

É recomendável ser bastante criativo no uso de recursos materiais. Não se prender a certos padrões, mas variar de acordo com o conteúdo da história a ser contada ou apresentada:

1) o velho flanelógrafo (quadro revestido de flanela ou feltro de cor lisa, sobre o qual se fazem aderir objetos ou figuras, fixadas ou removidas segundo as necessidades do ensino) pode ser uma boa opção para ilustrar uma história com vários assuntos e vários simbolismos;

2) transparências, preferencialmente confeccionadas pelas crianças, podem ser outro recurso que desperta interesse e ajuda a fixar a história;

3) slides com figuras da história que está sendo contada, projetados na parede, prendem a atenção das crianças e despertam as fantasias;

4) para pequenas encenações e dramatizações, fantoches e bichos de pelúcia são bons recursos;

5) a massa de modelar pode ser usada pelas crianças para confeccionar figuras da história que acabaram de ouvir, com isso recapitulam e fixam a história;

6) materiais colhidos na natureza e trazidos pelas crianças para ilustrar certos contos de fadas, por exemplo, prendem a atenção e valorizam a sua participação;

7) mudar de ambiente para contar a história da cidade: levar as crianças ao museu, a um cemitério com antigas sepulturas e convidar uma pessoa idosa para falar do passado. Nesse sentido se oferecem muitas possibilidades que devem ser exploradas.

Que História Contar

Toda história que contamos para uma criança mexe com ela, produz emoções e provoca reações. Por isso, é importante termos em mente, para a criança até aos 8-10 anos de idade, o mundo da fantasia e da realidade se fundem e confundem.

Os pensamentos e os sentimentos da criança estão em permanente fermentação e ebulição e – inconscientemente – procuram respostas para certos medos e anseios.

Qualquer história pode atingir uma criança profundamente e fazer com que ela peça a repetição dessa história durante dias e mesmo semanas, porque algo na essência de seu desenvolvimento e amadurecimento foi atingido.

“Felizes são aqueles que têm sensibilidade para perceber que o futuro da humanidade depende da maneira como formamos e educamos as crianças que nos são confiadas.”

Oito dicas que ensinam a contar histórias infantis

Ler histórias para uma criança parece ser simples, mas se você não gostar de ler vai acabar achando uma tarefa enfadonha e pior, vai passar essa sensação para a criança.

Deixe-se envolver pela história escolhida, entre na fantasia, brinque, participe, represente, transforme-se.

Ler histórias faz bem não só para a criança, também é bom para o adulto porque trás de volta suas memórias infantis.

Tente lembrar-se do clima que se instalava ao seu redor quando você era criança e ouvia alguém ler um belo conto de fadas.

No mundo de hoje a mídia está substituindo, cada vez mais, o diálogo nas famílias e diminuindo as oportunidades de desenvolvimento da imaginação infantil.

O meio mais importante para atingir esse objetivo é a contação de histórias e a leitura, conduzidas num ambiente agradável para a criança. Contar ou ler histórias requer um certo preparo, que vai desde a escolha do texto até a sua apresentação.

8 dicas maravilhosas para ajudar você a se transformar num grande contador de histórias:

1. Escolha uma história que encante, antes de tudo, a você mesmo, só assim você vai conseguir encantar a criança.

2. Procure um local agradável e confortável para que você se sinta bem e a criança se acomode.

3. Tente dar vida aos personagens usando a voz, o ritmo e o seu corpo inteiro.

4. Divida a narrativa com a criança, dê a ela a oportunidade de repetir a fala dos personagens.

5. Não fique dando explicações no meio da narrativa, a história deve bastar para preencher a fantasia infantil.

6. Use olhares enigmáticos, convide a criança a tentar adivinhar o que vai acontecer.

7. Leia e releia a histórias em várias ocasiões, assim a criança terá oportunidade de ir descobrindo novos detalhes.

8. Faça perguntas sobre os personagens: Quem é este? Onde está aquele? O que eles estão fazendo? Permita que a criança participe.

As histórias inventadas são importantes. A criança precisa saber de coisas que não fazem parte de sua experiência cotidiana. É comum ela ter um amigo imaginário ou atribuir qualidades humanas e sobrenaturais a um brinquedo ou a um animal.

As conversas e as histórias desses personagens, unindo o real e o imaginário, dão aos pais muitas dicas sobre seus filhos, pois é nessas horas que a criança deixa transparecer sentimentos como medo, a insegurança, o ódio, o amor.

Conclusão

As crianças que têm contato com as histórias desenvolvem mais a imaginação, a criatividade e a capacidade de discernimento e crítica; na medida em que se tornam ouvintes e leitores críticos, as crianças assumem o protagonismo de suas próprias vidas.

O que começou, lá no passado com o objetivo de apontar padrões sociais aceitáveis – “instruir mais que divertir” foi sempre o objetivo dos textos direcionados às crianças – pode, gradualmente, se tornar também um saudável exercício de cidadania, se proporcionar a discussão, a contestação e a relativização das idéias.

“É através de uma história que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outras regras, outra ética, outra ótica… É ficar sabendo história, geografia, filosofia, direito, política, sociologia, antropologia, etc… sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula… Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer, e passa a ser didática, que é um outro departamento (não tão preocupado em abrir todas as comportas da compreensão do mundo) “(ABRAMOVICH, 2003).

 

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